47 - Namoro Ou Corte?




Os verbetes que dão título a essa matéria , embora pareçam, não são sinônimos. Para os mais desavisados e, quem sabe, para as gerações mais jovens, talvez corte possa parecer uma parte do processo de namoro, mas, na verdade, o termo trata de um processo específico e pouco usual em nossos dias. Cortejar ou fazer a corte é uma prática antiga e de fundamental importância para os relacionamentos que se pretendem duradouros e conscientes. Mas, para entender essa prática que caiu em desuso e hoje é alvo de resgate, é necessário conhecer o contexto em que era empregada e qual é a proposta atual.

Nas sociedades medievais, e até há poucos séculos, era comum que os reis e nobres casassem entre si para preservar genealogias, tradições, bens e posses adquiridas. Um costume que foi assimilado pelas sociedades, adotado por famílias que se pretendiam comparáveis à nobreza e herdado pelo senso comum ao longo das gerações. Normalmente, os pais escolhiam quem seria o marido de suas filhas quando acreditavam ser tempo de casá-las. Outras vezes, as mulheres eram prometidas, logo após o nascimento, para honrar diferentes propósitos, inclusive dívidas.

Os maus exemplos das realezas, que se esbaldavam em relacionamentos ilegítimos, e o caráter pejorativo da penhora das filhas, por parte dos familiares, acabaram por deturpar essa prática dando lugar a um processo menos autoritário, onde os pais indicavam os maridos, com base em um conhecimento prévio e abrangente da origem social e familiar do pretendido, embora as mulheres continuassem sem o poder de escolha. Assim, seguindo o curso natural das sociedades, os relacionamentos deixaram de ter caráter de imposição. Hoje, busca-se atingir um estado de maturidade mútua entre os co-relacionados.

Em diferentes momentos, personagens da narrativa bíblica vivenciaram histórias que ilustram bem como era resolvida a questão do casamento no seio do povo de Deus. Muito antes das convenções sociais se estabelecerem, Deus se preocupou com os relacionamentos. E deixou exemplos como o de Jacó, que durante 14 anos cortejou e trabalhou por Raquel. Ambos sabiam e nutriam o amor deles, embora as condições e a trapaça de Labão os obrigasse a ficar separados. O que permitiu que esse e tantos outros relacionamentos se tornassem memoráveis e dignos de serem relatados no Livro Sagrado foi exatamente o caráter de pureza existente neles. O caráter humano de Raquel e Jacó serve de incentivo para se entender os propósitos de Deus.

O retorno às veredas

Um trabalho desenvolvido pelo ministério Family Fundation International, criado e liderado pelo pastor norte-americano Craig Hill, busca resgatar os valores e preceitos das chamadas "veredas antigas", que não são mais do que as orientações dadas por Deus e das quais o homem se desviou ao longo do tempo. Esse ministério atua em vários países, inclusive no Brasil. Segundo Rogério Goulart, coordenador do Veredas Antigas, ministrado em Belo Horizonte pelo Ministério Aliança, o seminário tem esse nome porque ao pesquisar e texto de Jeremias 6:16, em hebraico, Craig descobriu que as palavras originais significam literalmente "caminhos dos quais a Igreja se desviou". Dentre esses caminhos Rogério enumera as finanças, a corte, etc. "Conhecer e trilhar as veredas antigas significa aceitar a identidade e o destino estabelecidos por Deus para cada um de nós. Quando desconhecemos isso, somos levados para essas tentações dirigidas pelo inimigo, sendo que o propósito de Deus é maior e muito melhor do que qualquer coisa que Satanás possa nos oferecer", afirma Rogério.

Corte, uma vereda

"Vede e perguntai pelas veredas antigas, qual é o bom caminho. Andai por ele e achareis descanso para as vossas almas."
Com essas palavras, o profeta Jeremias anunciava os caminhos e propósitos que Deus espera de seu povo. Para Janice Goulart, coordenadora e facilitadora do Veredas Antigas, a vereda citada em Jeremias 6:16 é a receita que se aplica a todo tipo de relacionamento, principalmente os familiares. Para ser uma família feliz é preciso compreensão, aceitação e sobretudo conhecimento do querer de Deus para a sua descendência. Assim, nada mais óbvio do que trabalhar a formação do novo lar quando, ainda, em sua fase embrionária, a corte.

Janice lembra que nos casamentos citados na Bíblia, como no caso de Isaque e Rebeca, os pais escolhiam os esposos para seus filhos. E acrescenta: "O pai de Isaque sabia que a família de Rebeca vivia dentro dos mesmos princípios que eles, nas mesmas veredas de Deus. Hoje, o que se vê são gerações destruídas porque as medidas de proteção dadas por Deus foram quebradas, de geração em geração." E, avalia: "É difícil começar um trabalho que visa resgatar um princípio de Deus. Mas estamos semeando. Uma geração que semeia, começa a se reproduzir. Não podemos ficar de braços cruzados vendo os nossos jovens agindo de acordo com os padrões impostos pela mídia e pelo processo de comunicação normal, e não fazer nada."

As sementes de bons caminhos começam a ser lançadas. E, certamente, serão frutíferas porque todos os preceitos de que o homem precisa já foram estabelecidos por Deus e, para mantê-los, Ele levantou Jeremias, Timóteo, Paulo e tantos outros ministros contemporâneos. O fundamento de todas as coisas começa e termina no Seu mover e não poderia ser diferente com os relacionamentos humanos.

A expectativa de Janice tem fundamento. Percebe-se que já existe uma tendência de não se entrar na "onda" atual: todos são de todos e ninguém é de ninguém. Está havendo uma certa saturação desses padrões de comportamento e isso está levando jovens a uma reflexão maior e a um certo critério com relação à escolha do par. A falta de alguém, como os pais, para ajudar é visível.

Os pais

O pastor Cléber William Ferreira da Silva, líder do Ministério Aliança, entusiasmado com a proposta da corte, explica: "A corte visa principalmente trabalhar os pais. Queremos alcançar os jovens através dos pais. Eles passam muita insegurança, por não estarem vivendo dentro dos padrões estabelecidos por Deus. O primeiro modelo deveria ser os pais, dentro de casa. Mas o que se vê são os pais transferindo a responsabilidade de educação e formação para a escola, para a igreja, para a sociedade." Segundo o pastor, quando as coisas não dão certo, os pais colocam a culpa nas instituições. Se os pais não se colocam no papel de modelo para os filhos, eles vão buscar outros, em outros lugares. Modelos mostrados pela mídia, por exemplo, que trazem um apelo muito forte. Pais assim, afirma Cléber, mais tarde só podem fazer uma coisa: chorar pelos filhos.

"Os pais devem ensinar seus filhos a guardarem seus corações e a entregarem seus sentimentos a Deus." Cléber crê que se outras pessoas se somarem ao Aliança nessa proposta, alcançarão bons resultados. "Queremos que as famílias vivam um padrão de excelência, que elas desfrutem de tudo aquilo que Jesus conquistou na cruz do calvário. Muitas vezes queremos fazer o nosso próprio caminho, em vez de andar nos caminhos de Deus. Precisamos nos voltar à Palavra e resgatar esses valores que são eternos", enfatiza.

Namoro

"Os adolescentes, quando começam a despertar para o namoro, agem como as pessoas mais velhas, que visam, quase sempre, tirar proveito do parceiro", alega o pastor. "Não existe namoro na Bíblia. Existe é compromisso e amizade. O namoro hoje começa com o primeiro olhar. Um agrada da aparência do outro, do jeito de falar, de vestir, mas não existe amizade, confiança, algo mais sólido. Às vezes, começam a namorar sem se conhecerem. Tanto é que, se aparecer uma moça ou um rapaz mais atraente, tanto a moça quanto o rapaz que estão namorando não medirão esforços para `ficar' com a outra ou com o outro. É comum o namoro se tornar inimizade porque, muitas vezes, as pessoas se sentem traídas, usadas e abusadas pelo outro."

Cléber admite que o namoro é uma legalidade para que aconteça a defraudação já que, para muitos, namorar é tirar proveito, é satisfazer a si próprio, como a relação sexual antes do casamento.
Ainda hoje sabe-se que pessoas requerem do parceiro o relacionamento mais íntimo como "prova de amor". Essa prática está tão cristalizada que muitas vezes, no imaginário das pessoas, já existe essa máxima: "Quem ama, transa."

Comportamento e mídia

"A defraudação pode trazer ao casal uma vida sexual problemática, sentimento de culpa, ciúmes, insegurança", comenta Cléber. "Quando passamos por cima da linha divisória estabelecida por Deus, atraímos maldição sobre nós." Os jovens, com o apelo da mídia, muitas vezes querem demonstrar ser uma coisa que não são e acabam perdendo grandes oportunidades de desenvolver amizades com pessoas do sexo oposto. Eles se tornam imaturos e inseguros. "Essa insegurança faz com que mintam, enganem a si mesmos, porque a mídia e seus colegas cobram deles determinado comportamento", sentencia Cléber. "Um exemplo é quando um menino de 15 anos é criticado pelos colegas por não estar saindo com nenhuma garota. Já começam a colocar em dúvida a masculinidade dele. O fato de não namorar passa a ser uma vergonha."

A maioria dos jovens não consegue trabalhar essa questão e chegar ao casamento sem temores. "Eu não vejo nenhum problema de moças e rapazes terem amizade. O que é preciso é que em primeiro lugar dêem seus corações a Deus para que Ele escreva a história da vida deles. A corte é esse relacionamento de amizade entre duas pessoas onde ambas entregam seus corações a Deus e permitem que o próprio Deus diga se, ou quando aquela amizade deve se encaminhar para um casamento." E prosseguindo: "Quando o casamento começa errado, ocorre o sofrimento em conseqüência do pecado: famílias desestruturadas, filhos nas drogas, na prostituição, violência, etc. Em um casamento nascido de um relacionamento como a corte, os jovens enxergam muito além do mundo natural."

Saindo do muro

Paoletti Silva, que divide com o marido, Cléber, a coordenação do Ministério Aliança, da Igreja Batiosta da Lagoinha, declara que muitos jovens crêem no relacionamento da corte. Mas quando eles se deparam com a multidão que está dizendo o contrário, que namoro é sexo, liberdade, ele acaba se diminuindo ou ficando isolado. "Creio que, através desta proposta, muitos vão ser despertados por estarmos falando em uma coisa na qual eles acreditam." E complementa: "Esses que estão isolados, totalmente excluídos, irão começar a simpatizar com a idéia e se abrirem mais. Já estamos tendo um retorno positivo de jovens, filhos de casais conhecidos nossos. Eles comentam que leram os livros que recomendamos, que pensam da mesma forma que os autores e que têm vivido dentro aquele parâmetro."

A coordenadora do Ministério Aliança afirma que muitos jovens que simpatizam com a corte se omitem, temendo serem ridicularizados por pensarem diferente. "Creio que através do trabalho, essas pessoas vão começar a se manifestar. Os jovens que se dispuserem, como alguns que já se decidiram, irão trabalhar conosco na implantação da visão dentro da nossa comunidade. Nada é melhor do que outro jovem para compartilhar suas idéias e testemunhos, sem vergonha e sem medo."

Momento de decisão

A corte, em princípio, não tem a intenção de noivado, nem de um futuro casamento; é uma simples amizade. Com a convivência, as pessoas ficam se conhecendo melhor. Segundo Cléber, chega uma hora que Deus fala ao casal: "Agora é hora de vocês assumirem um compromisso e se manterem íntegros para o casamento." Para ele o envolvimento dos pais nesse relacionamento é fundamental. "Eles devem estar presentes em todas as decisões, apoiando, encorajando. Isso traz muita segurança ao filhos e a eles próprios, porque ficam tranqüilos sabendo que os filhos estão caminhando em um relacionamento puro, voltados para o Senhor", finaliza.

Cléris Cardoso e Kétsia Lima
Retirado do site www.lagoinha.com

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